O medo mais secreto
segredado ao vento por Flor de Lótus , 22.1.10 16:47
Não sei bem que dia ou que horas eram. Estava uma brisa fresca e desconfortável. Abraçaste-me atrás de mim, apercebeste-te que estava com frio (apercebes-te sempre) e encostaste a tua cara quente na minha.
Estávamos no Cais do Sodré, à espera do comboio cujo destino eu desconhecia.
- Importas-te que vá ver ali uma coisa? - perguntaste-me.
Acenei que não, então beijaste-me e dirigiste-te a um comboio que ali estava parado e vazio.
Senti um arrepio ainda maior quando te afastaste, mas ainda com a recordação do teu tacto e do teu calor, sentei-me num banco a ver-te ler uns livros que tinhas encontrado no tal comboio.
Estavas concentrado, com aquela ruga entre os olhos de que gosto tanto. Folheavas cada livro com o cuidado de quem pega numa flor, o mesmo cuidado que tens sempre comigo. De vez enquando levantavas a cabeça para olhar para mim, sorrir-me e fazer-me sentir que o meu futuro és tu. Porque sempre que sorris assim e os teus olhos cor de mel se iluminam, fazes nascer mais uma estrela na minha noite escura.
Um apito soou no ar, o nosso comboio tinha chegado. Levantei-me para te chamar mas fui atropelada por uma multidão que corria para o comboio. Pisavam-me, davam-me encontrões, cotoveladas, todos corriam em sentido contrário, fazendo os meus pés elevarem-se do solo e arrastando-me numa maré de gente. Perdi-te de vista. Tentei chamar por ti mas o teu nome morreu na minha garganta. As pessoa batiam-me, mas principalmente barravam-me o caminho até ti.
De repente tudo parou, a estação ficou vazia. O comboio soou mais uma vez e partiu aceleradamente, levantado uma nuvem de poeira e uma rajada de vento atrás.
Mas eu não dei conta.
Estava a olhar para um comboio parado, com livros lá dentro, mas vazio. Os teus olhos de mel não estavam lá, tinhas desaparecido.
Num ataque de pânico corri todas as carruagens à tua procura. A loucura tomara-me de posse, naquele momento não passava de um corpo abandonado, desorientado, com espasmos de dor.
Corri tudo. Não vi ninguém. Mas sobretudo não te vi a ti.
Sentei-me cansada no chão frio e senti um arrepio a percorrer o meu corpo petrificado, prisão de uma alma congelada. talvez tenha começado a chover, não sei, a partir desse dia deixei de sentir.
Não voltei a ver-te.
05: 30 da manhã. Acordo sobressaltada. Lavada em lágrimas e suor pego no telemóvel sob a mesa de cabeçeira.
Do outro lado ouço o teu "Estou" ensonado. Sabes perfeitamente o que aconteceu. Os meus pesadelos são muito habituais ultimamente, e o teu telefone já tem o volume no máximo a pensar nisso.
Respirei de alívio e deixei que a tua voz me acalmasse.
Não há noite em que não sonhe perder-te. Preciso de descançar.