O dia em que te esqueci

segredado ao vento por Flor de Lótus , 30.12.09 23:12

Uma criança num baloiço vazio, uma rua abandonada. Podia dizer-te que sou o verão, na verdade não sou mais que Abril. Quando os sonhos nos sorriem e atraiçoam, retirando a mão estendida, quando cais, quando vacilas, quando as artérias comprimem a as veias rebentam. Quando o mar riposta e os ventos sacodem quando as nuvens cobrem e os campos escurecem.

Quando o mundo deixou de te pertencer e as conchas se fecham em copas. Quando eu sou muito mais que aquilo que os teus olhos reflectiam, quando me tornei muito mais que uma página solta na calçada.

As minhas palavras valem mais que sentidos e as expressões são mais que simples desfechos nublados, numa árvore que esconde o sol. Quando sei que o meu cheiro me pertence e não é uma mistura do teu. Quando digo adeus à tua lunática ideia e sigo o meu caminho, nunca traçado por ti. Quando os dedos da alma fecham a cortina que escorre dos teus olhos.

As tuas pedras deixaram de ser aguçadas e afiadas. Deixaram de me dilacerar a pele e fazer feridas. Deixaste de ter o meu coração (aquele que não mais é que um músculo) na tua colecção, evidenciado como se troféu fosse.

Eu agora sou eu, não umas palavras colocadas na tua boca, feitas para adoçar, o que amargo não podia deixar de ser.

Hoje esqueci-te. Tornei-me numa nota desafinada, separada de todas as outras.
Hoje deixei de pertencer ao teu piano de cauda abandonada, com uma jarra vazia e uma flor a apodrecer.

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