epílogo

segredado ao vento por Flor de Lótus , 23.4.09 18:47

23 horas . Sento-me na cama, sinto que tenho as percepções desnorteadas, prestes a saltar do córtex cerebral. Beber água. Vou para a casa de banho. A água fria na cara ajuda-me a clarear os conceitos e ao olhar ao espelho reconheço a cara familiar…Joana, é como me chamo. Pragmatismo e racionalidade é com o que me identifico. No entanto, tudo o que poderia dizer de mim, seria mentira.
Eu sou um mundo aparte, não me conheço minimamente (há quem me conheça melhor) e eles sabem perfeitamente que uma tentativa de definição para mim, não passaria de uma falsidade, de uma aparência, aproximação. Porque eu sou aquilo que não mostro, ou que às vezes me apetece mostrar. Sou aquela que chora, que grita, que sorri, que ajuda, que critica…sou todos os defeitos e feitios concentrados numa embalagem, por sinal pequena.
Não tenho jeito para literatura e não suporto descrições, as coisas são como são, porque é preciso descrevê-las? Identificá-las? O que é o amor? Sei lá, um dia descobres!
Outra coisa para que não tenho paciência: lamechices, melo dramatismo. Não sei e não quero saber no que vai aí nos corações dos apaixonados, não me interessa minimamente o amor puro, porque ele simplesmente não existe! Sim ouviram bem, não existe! Lamento informar , mas manter um namoro dá mais trabalho que criar uma criança.
Dou um último olhar ao espelho. Mudei? Sim, mudei. Apago a luz.
Volto para o quarto. Mary, a minha antiga amiga e companheira de histórias de amor, ilusões de duas adolescentes sem nada melhor para fazer…queres mesmo que te explique o que aconteceu?
Aconteceu que deixei de acreditar nas pessoas daqueles terrenos, daquelas laias. Deixei de poder confiar, porque tudo aquilo me era podre e soava a falso. Só sobrevivi porque pus a razão acima dos sentimentos. Só assim prevaleci.
Queres mesmo que te diga? Não há arritmia cardíaca suficiente que doa tanto como uma traição. Uma traição de amiga. Aquela que é aprazível e premeditada, com um toque de retaliação.
Eu mudei, escolhi o pragmatismo, e na minha vida não tenho tempo nem espaço para aparências, fantasias, ingenuidades. Escolhi que o meu futuro era eu que o fazia. Não o deixo nas mãos de um destino, de um deus, de algum planeta. O final sou eu que escrevo, o conto de fadas é meu e só meu. Porque eu é que sei. O meu mundo é real. Baseado em factos nunca em omissões.
Lamento ser assim, lamento não corresponder, mas não consigo. Não sou mais uma criança, deixei de ir à missa, de venerar o crucifixo, por muito que me custe e por muitas pessoas que possa magoar, aquele tempo em que conheci a minha família, só me fez ver a podridão que dela emanava. E lamento ser tão dura e frontal. Lamento, a sério. Gostava de viver no teu mundo Mary, naquele que era nosso. Gostava de poder voltar ao espaço paralelo de sentimentos e contradições.
Mas as cicatrizes já são as suficientes, e por contingência, já me habituei. Sei a verdade e sou feliz.
Também quero que sejas, à tua maneira. Não te vou negar um desabafo. Não temerei em mandar-te uma pétala pelo vento quando sentires falta. Mas não me peças, não me exijas, a entrada e presença num mundo que já não me pertence. E ao qual eu já não quero fazer parte.
Eu tornei-me uma flor selvagem, desconfiada, pensante.
Eu mudei.

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